Homologação do Programa de Português do Ensino Secundário

21-01-2014 19:05

Homologação do Programa de Português do Ensino Secundário

Foi hoje, 21 de janeiro, homologado o novo programa de Português para os três anos do ensino secundário, com as alterações a que o prestigiado grupo de trabalho encarregado de o elaborar entendeu dever proceder com base em ulterior reflexão e em algumas das sugestões e críticas produzidas em sede de discussão pública – diga-se de não longa duração. Por mim, sabendo que é difícil responder positivamente às diversas sugestões, tenho de reconhecer que vi algumas das minhas dúvidas dissipadas, embora naturalmente outras dicas tivessem naturalmente ficado pelo caminho.

Quando um projeto se expõe ao escrutínio do público, é óbvio que as posições serão diversificadas, umas concordantes, outras discordantes e outras mesmo agressivas; umas mais razoáveis, outras nem tanto. Todavia, na matéria em causa, fiquei espantado com o que vi escrito:

Para a Câmara Municipal [de Sintra], a história da construção do Palácio e Convento de Mafra, no século XVIII, que serve de pano de fundo ao romance de Saramago, "exerceu um papel fundamental na valorização turístico-cultural do concelho, contagiando positivamente a economia local", até pelo número de visitas de estudo recebidas no monumento nacional, em consequência de ser uma das obras de estudo obrigatório do secundário.

 – vd Notícias ao minuto [Em linha]: http://www.noticiasaominuto.com/pais/161871/governo-recua-e-memorial-do-convento-mantem-se-no-secundario?utm_source=rss-pais&utm_medium=rss&utm_campaign=rssfeed#.Ut6jIdKp2t8, acedido hoje.

Conquanto entenda que o estudo de uma obra literária e seu autor venham a beneficiar o turismo local e regional e a servir de incremento à mesma economia, não posso aceitar que estes fatores possam constituir condicionamento à séria proposta de conhecimento extensiva a todo o território nacional. Deve ser a ciência que deve andar à frente dos interesses, por mais legítimos que sejam, e não o contrário.

Ora, se o grupo, por trás das justificações, de todo plausíveis, apresentadas na edição de hoje do Público, deixa subjacentes as motivações da referida autarquia, no que não acredito, tenho de confessar a minha total discordância, até porque não aceito que o poder autárquico tenha uma palavra inquestionável na determinação de programas nacionais. Pode e deve promover com foros de total cidadania a inclusão de peças curriculares de ordem local, de leccionação obrigatória no seu quadro territorial. De resto, já algumas das nossas escolas estarão semissaturadas da hegemonia municipal, nem sempre de bom agouro.

De outro modo, também eu deveria exigir o estudo de alguns autores e suas obras, putativamente importantes para o interesse regional e local, mencionando meramente a título de exemplo: Aquilino Ribeiro, António e João Correia de Oliveira, António Silva Gaio, Abel Botelho, Fausto Guedes Teixeira e Luís Veiga Leitão, para a incremento do turismo e da economia nas aquilinianas terras do Douro Sul, do Alto Paiva e do Alto Vouga; Ferreira de Castro, Manuel Laranjeira e Henrique Veiga de Macedo, das Terras de Santa Maria; Vergílio Ferreira, José Marmelo e Silva, Tomás Ribeiro e Manuel António Pina, da envolvente da Serra da Estrela.

Quanto à obra de Saramago, sem deixar de sublinhar o interesse do seu modo de construção das personagens, do estabelecimento peculiar das linhas de narrativa e da utilização de um conceito alternativo de história presentes em Memorial do Convento, apraz-me referir que esta não será a sua única obra emblemática enquanto narrativa nem a de mais fácil acesso aos estudantes. Não sei mesmo se Levantado do Chão (valha-nos a própria opinião do autor!) ou O Ano da Morte de Ricardo Reis ou A História do Cerco de Lisboa não favoreceriam mais os objetivos deste nível de ensino.

Seja como for, os objetivos de educação e ensino, seus conteúdos, metodologia e avaliação devem ser definidos por quem está ligado à investigação e à docência, sem sujeição a grupos de pressão, venham eles donde vierem – da política, da economia, da finança ou da religião.